A fé perfeita
Conta-se que, lá pras bandas do sertão, onde a chuva não cai e calango serve de alimento, há um pequeno lugarejo e nele algumas casinhas, avermelhadas pela poeira, uma praça e uma igrejinha defronte à venda do Zé. Certa feita, quando a seca castigava o povo, que nada tinha pra comer e beber, ouviu-se do fundo da igrejinha, a voz do acanhado Gurmecindo, que notando os olhares de todos, quase se afundou atrás do banco. Vermelho de vergonha, mas como foi a pedido de todos, repetiu: _ Vamos orar ao nosso Deus pra que mande chuva! _ disse ele... _ A noite toda. O pastor ouvindo tal coisa logo concordou e todos ficaram de pé, olhando o avermelhado Gurmecindo. Alguns se queixaram, outros se calaram, mas, quando o sol se pôs por detrás do morro, lá estavam, cada qual com sua fé. Ajoelharam-se, oraram e louvaram o Deus fiel! Gumercindo, agora mais confiante, sentou-se no banco da frente e cantou com voz de trovão. Louvado seja o Senhor, pois em seu ouvido ouviu bem baixinho: _ Amanhã antes que a tarde caia, virá aquilo que me pediram! Gumercindo, assustado e vermelho mais do que o de costume, saltou do banco e disse: _ Oia que todos nós temos que estar na praça de manhâ cêdo! Ninguém entendeu...contudo, em sua sabedoria, o pastor gostou da idéia e sorriu. Alguns se queixaram outros se calaram,mas na manhã seguinte estavam lá, menos o gumercindo. O sol a pino castigava e os menos crentes murmuravam! Uma pequena nuvem se formou ao longe e veio se aproximando. Todos oraram, louvaram a Deus, enquanto que, do fim da rua, o empoeirado e avermelhado Gumercindo apareceu com seu guarda-chuva negro, cabo de madeira que ele, com seu canivete afiado, talhou. Ao pisar na praça, timidamente, olhou para o céu e perguntou: _ Ocês num truxeram? vão se molhar de vera! _ completou... O sol ainda estava a pino e queimava-lhes as faces, mas a nuvem, que antes era pequena com um floco de algodão, se tornara tão grande quanto a fé daquele homem. E pela graça de Deus, a chuva caiu em abundância pra todos e Gumercindo, ainda vermelho, deu o seu guarda-chuva, com cabo de madeira, a uma mãe que segurava o seu bebê no colo.
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